quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

II – ECONOMIA E DESENVOLVIMENTO DE JAPI

O texto a segui foi transcrito do livro JAPI, TERRA QUERIDA em fatos e fotos, (SANTOS, 2018, Pp. 121-124; 128; 183-185; 158-160; 275).
O texto refere-se aos tropeiros que desbravaram as terras japienses do final do século XIXao início do século XXA palavra tropeiros deriva de tropa, uma referência ao conjunto de homens que transportavam mercadorias e animais no período colonial.

Observação: a editora estará enviando o montante de livros a japi no dia 08/01/2018 e a festa do lançamento está confirmada para 13/01/2018.


2.1 OS CAMINHOS DOS TROPEIROS (MATUTOS)

Do final do século XIX, por volta de 1895, até 1935, a localidade de Japi foi invadida por muitas tropas de jumentos ou burros que eram guiadas e tangidas por pessoas conhecidas pelo nome de “tropeiros” ou “matutos”. Era a época dos grandes tropeiros e transportadores de produtos comerciais que transitavam na rota comercial do Brejo/PB ao Sertão potiguar, os quais, tanto quando iam para o Sertão e quando voltavam para o Brejo, passavam pela localidade de Japi, e muitos deles se hospedavam em algumas casas conhecidas na época por “casas de rancho”. Hoje, essas casas seriam chamadas de hotéis ou pousadas.

Foi por causa do grande fluxo de tropeiros, da localização geográfica, da oferta de trabalho nos campos de algodão e do bom acolhimento por parte do povo daqui, especificamente pelo coronel Manoel José de Medeiros, grande proprietário de terras e de rebanhos bovinos, cujo, nesse tempo controlava toda a economia dessa localidade, que aos poucos essa região ia se tornando mais habitada, principalmente por imigrantes camponeses e tropeiros.
Referindo-se aos tropeiros, quero aqui lembrar e citar o nome de alguns, deles que na primeira metade do século XX vieram morar em Japi. Entre tantos: João Batista Confesso de Oliveira, fundador da primeira rua da cidade (1905); Claudino Marques de Sousa, fundador do povoado de Pedra Preta (1910); Chico Berato, pai do professor e ex-diretor Manoelzinho Berato (década de 1920); Antônio Nunes, pai de Beto do Supermercado, que é esposo de Erivalda (década de 1940); Leonel Confessor, avô de Orlando, “Sarará” e do comerciante Chicopela (1930); Nô Birico, pai da professora Ivonete Félix, que é poetisa (década de 1940); João Catarina “Catirina” avô da esposa de Djair (1950) e tantos outros que ajudaram muito a crescer, povoar e desenvolver esta localidade.
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 O desenho reproduz uma fotografia da obra BraziJien de Peter Fuss.

Em 1927, todos os proprietários da localidade de Japi cultivavam a lavoura de algodão. Nessa época, todo o algodão desta área era levado à fazenda de Manoel José de Medeiros, em “tropas de jumentos”. Vale ressaltar também, que desde 1920, Manoel Medeiros já era o maior produtor de algodão da região e também comprava todo esse produto que nas outras propriedades era produzido. Outro fato curioso e duvidoso daquela época em várias partes do Nordeste é referente ao preço do algodão. A saber, quem repassava o preço do produto ao trabalhador “meeiro” era apenas o seu patrão. Todavia, só ele tinha acesso às empresas compradoras desse produto.


Segundo um tio de Zé Albino, chamado Luiz Albino, que trabalhou vários anos na fazenda do coronel Manoel José de Medeiros, no início do século XX os meios de transporte que trafegavam nesta localidade eram o jumento, o burro mulo e o cavalo. Por isso, naquela época, o algodão era levado das fazendas menores para a fazenda grande de Manoel José de Medeiros, em pequenos jumentos que compunham as tropas dos pequenos fazendeiros.
Segundo Luiz Albino, até o final da primeira metade do século XX, aqui existia ainda alguma pessoas que possuíam tropas. As tropas dos proprietários mais abastados eram formadas de burros mulos. As dos mais pobres eram formadas de jumentos pequenos. Vale salientar que existiam as tropas de aluguéis. Por isso, todos os dias, no período da colheita do algodão, aumentava o fluxo de tropeiros chegando e saindo da fazenda de Manoel José de Medeiros, principalmente na parte da tarde. Elas vinham de outras fazendas com suas tropas carregadas de algodão para vender ao coronel. Havia também os tropeiros que saíam em comboios, levando cargas de algodão para as cidades de Santa Cruz, Macaíba, enquanto outros iam até a cidade de Natal. Eram tantas tropas, que quando terminava de sair a última da fazenda de Manoel Medeiros, a primeira que tinha saído há mais de uma hora já ia chegando à localidade da Barra dos Gomes, que fica a quase 10 quilômetros de Japi.
O informante falou que na década de 1925 havia nessa região outra movimentação de tropeiros, paralela à que transportava algodão. Eram os tropeiros que vinham da Paraíba e iam para o Sertão. Por causa de toda essa movimentação aqui, a localidade estava se tornando uma das regiões mais movimentadas do Trairi e, evidentemente, tendia a se tornar um centro comercial.
            Veja o que um sábio homem citou sobre esses fatos por ele ter vivenciado na década de quarenta e cinquenta do século passado: “Numa retrospectiva, vejo que nada desconheço dos serviços do campo, pois de tudo fiz um pouco. (...) Tangi tropas de jumentos[1], carregando algodão para descaroçar em Japi, tendo o cuidado de trazer a semente para a nova plantação” (SIMÕES, 1986, pp. 39-40).
            O nosso povoamento e desenvolvimento socioeconômico se deu devido a dois fatores: o fluxo de tropeiros e a produção do algodão. Vale ressaltar, que tudo isso veio acontecendo de forma muito lenta.
Assim, no início do povoamento, o pequeno grupo de moradores residia em modestas casas de taipas e vivia da agricultura familiar. Algumas pessoas criavam animais e outras se utilizavam de alguns recursos naturais existentes na região, transformando-os em objetos que eram vendidos aqui e em outras localidades vizinhas.
É importante saber, que os objetos fabricados por aqui eram feitos de forma artesanal. E, para isso acontecer, os primeiros moradores usaram os seguintes produtos naturais: argila (barro), “croá” (caroá), carnaúba, oiticica, malva, que fazia vassoura, quenga de coco e outras árvores. Mas, logo chegou o algodão invadindo todos os roçados da região e tornando-se a maior fonte econômica da população. Depois chegou o agave. Influenciados pelo “ciclo do couro”, algumas pessoas começaram a comercializar também esse produto e outros derivados de animais. Com isso, foi aumentando o comércio local. Depois descobriram o minério de scheelita (chelita). Daí surgiu uma diversidade de profissões como: pedreiro, carpinteiro, engraxate, barbeiro, ferreiro, olheiro, serralheiro, barraqueiro, padeiro, marchante, costureira, artesãos e comerciantes de produtos diversificados.
Na década de 1930 já existiam automóveis em quase todas as partes da Paraíba e do Rio Grande do Norte. E, com a chegada desses veículos, rapidamente deixaram de trafegar nas estradas as tropas de jumentos, que faziam o trajeto/PB ao Sertão/RN. Com isso, a nossa região perdeu muito, porque, naquela época, o desenvolvimento de Japi dependia muito do fluxo de tropeiros que por aqui passavam.
Visão de um futuro promissor e de um desenvolvimento pautado nos recursos científicos e tecnológicos nunca foi meta de algumas pessoas que estiveram até hoje à frente do comando da municipalidade de Japi.


A velha, seca e histórica baraúna. Ela é histórica porque na época dos tropeiros, antes da Emancipação Política de Japi, ela serviu de rancho para os matutos. Essa baraúna existiu nesse lugar até o dia 15 de agosto de 2017, quando o então prefeito Jodoval Ferreira de Pontes mandou derrubá-la. Segundo o gestor, para derrubar a baraúna, antes, ele trouxe o IDEMA, o qual, depois de examinar a árvore ordenou que a derrubasse. Todavia, estava morta e sem raízes para sustentasse. Portanto, a mesma oferecia risco de acidente a população.


2.10.2 O advento do automóvel e o desaparecimento das tropas

No início do século XX, com o desenvolvimento e expansão da ciência e da tecnologia em quase todas as partes do mundo, o homem construiu o automóvel. Esta foi uma das maiores invenções até os dias de hoje. Com o surgimento desse fantástico meio de transporte ocorreu uma mudança brusca e significativa em nossa região, especificamente com os tropeiros transportadores de mercadorias. Os empreendedores maiores no ramo do comércio rapidamente aderiram ao automóvel, porque lhes proporcionava mais economia de tempo e de dinheiro.
Os mercadores inovaram os seus transportes, substituíram as tropas de jumentos por automóveis, especificamente aqueles que transportavam muitas mercadorias.
O desenvolvimento do distrito, e depois cidade de Japi, dependia muito do comércio local, que teve início nos primeiros anos do século XIX. Para esse progresso ter continuado como uma das alternativas econômicas com base no comércio era preciso manter o fluxo de automóveis dos comerciantes por aqui, como assim faziam os tropeiros. A chegada do automóvel trouxe realmente uma grande mudança. Para continuar a rota comercial, era necessário um grande esforço, muita coragem e ação. Porém, faltou vontade, inteligência, foco e força política por parte dos nossos líderes.
O fato é que, na década de 1940, os tropeiros estavam em declínio, e os automóveis que acabaram de chegar ocupavam os espaços das tropas, antes responsáveis pelo desenvolvimento comercial no povoado de Japi. Com efeito, com as novas mudanças tecnológicas também surgiu uma diversidade de objetos modernos, que substituíram os tradicionais: as tropas foram sendo substituídos por automóveis, os produtos feitos com barro (prato, panela, jarro e pote) pelos de alumínio, ferro e plástico. O século XX foi de fato o período de grandes mudanças, das rupturas advindas do progresso, da ciência e da tecnologia.
Para o desenvolvimento de Japi ter acompanhado esse moderno progresso econômico  fundamentado e inspirado no comércio dos tropeiros teria sido necessário que as pessoas mais influentes da nossa localidade, a partir de 1960 até os dias atuais, tivessem conseguido através dos políticos, da prefeitura, de qualquer outro órgão público, uma coisa que era e que é muito importante para a continuação, sustentação e expansão econômica da nossa região: a pavimentação asfáltica da estrada que faz a ligação entre as cidades de Japi/RN, Cacimba de Dentro e de Araruna/PB. Se existisse essa estrada asfaltada, com certeza haveria grande movimentação de veículos trafegando entre o Brejo paraibano e o Sertão potiguar, passando por Japi como fazia anos atrás os tropeiros. E, com isso, o comércio de Japi seria bem maior. Mas, como isso não foi prioridade até os dias de hoje, Japi não pôde acompanhar o crescimento das outras cidades[1] no que diz respeito ao comércio e ao seu desenvolvimento econômico e social. Agora existe a romaria ao santuário de Santa Rita de Cássia que fica na cidade de Santa Cruz, para onde se dirigem muitos devotos paraibanos, que poderiam passar por Japi. Se houvesse uma estrada asfaltada dificilmente eles iriam pela estrada que passa pelas cidades de Passa e Fica, São José do Campestre e Tangará. Passariam certamente por Japi, pela estrada que antes passaram os tropeiros.


2.7 A CIDADE DAS PERDAS

            Não é necessária uma mente superdotada para perceber que quase todos os principais dirigentes do nosso povo, aqueles que estiveram no comando e responsáveis pelo destino da comunidade nunca priorizaram um desenvolvimento planejado e sistemático, tomando como base fundamental os recursos humanos, naturais, econômicos, científicos e tecnológicos, numa perspectiva futurística voltada para o bem-estar coletivo e progresso social.
            Com uma consciência fechada para o progresso e para as mudanças advindas da ciência e da tecnologia, já presentes no mundo, e mesmo nos arredores de Japi no início do século XX, viviam aqueles que mantinham o poder em suas mãos. Eles deveriam ter lutado inteligentemente para trazer novas alternativas desenvolvimentistas para a região. Porém, eles pensavam evidentemente que as coisas nunca mudariam e não se evolucionariam, e que tudo girava em torno deles. Na verdade, essas pessoas viam e presenciavam as mudanças que estavam presentes aos seus olhos. Viam, mas não entendiam. Faziam como diz o velho ditado: “A pior cegueira que existe não é a do cego de nascença. É a daquele que vê e não enxerga”.
            Para a maioria desses líderes, o que prevalecia mesmo era uma mente individualista. Às vezes, é necessário perder para ganhar. Por causa desta mentalidade é que a cidade de Japi é considerada a “cidade das perdas”.

Veja a lista de algumas perdas:

1940 – Perdemos o fluxo de comerciantes que passavam por Japi.
1944 – Perdemos o açude que Geraldo Simões queria fazer em parceria com Japi.
1951 – Frei Damião quis fazer uma via-sacra e os líderes da época não aceitaram.
1953 – A latada caiu e perdemos a feira campal que era realizada nas sextas-feiras.
1955 – Perdemos uma subestação elétrica. Os líderes não aceitaram.
1959 – Japi é emancipado, porém a área urbana é de herdeiros. Ou seja, uma área particular. Com isso, não há financiamento econômico para as pessoas físicas e jurídicas. Todavia, por esse motivo perdemos muito e ainda estamos perdendo. E, se não resolverem esse problema vamos perder mais.
1960 – Perdemos o grande açude de Japi II. Os líderes não aceitaram.
1974 – O Exército quis explorar o minério de cheelita, mas não aceitaram.
1985 – Deixaram de fazer a estrada asfaltada que ligaria Japi a Cacimba de Dentro e Araruna.
1995 – O padre Normando quis fazer uma estátua de Frei Damião e não aceitaram.
1996 – Perdemos área do nosso território para a Paraíba (Assentamentos Barbaço e Milagres).
1999 – Perdemos reformas de casas populares na Rua Manoel Gerônimo (Rabo da Gata).
1999 – Deixaram de concluir o ginásio poliesportivo de Japi.
1999 a 2000 – Perdemos redes de saneamento básico.
2015 – Perdemos o programa Minha Casa, Minha Vida. Financiado pela Caixa E. Federal.
2016 – Perdemos uma creche modelo do governo Federal, por falta de um terreno público.
0000 – Perdemos mais uma quadra de esporte na cidade e nos colégios.
0000 – Perdemos reformas em escolas, em casas populares e muito mais.
0000 – Estamos perdendo de construir viveiros para criação de aves.
0000 – Pedra preta precisa de uma britadeira para gerar mais emprego e renda para o município, portanto estamos perdendo com isso.
0000 – Estamos perdendo por não construirmos olarias. Elas são geradoras de emprego e renda.
0000 – Estamos perdendo por não construirmos pequenas fábricas de outros produtos.
0000 – Estamos perdendo por não fazermos uma feira campal e incentivar o comércio local.
Se não tivéssemos perdido tanto, e infelizmente ainda estamos perdendo, certamente a economia do nosso município seria de fato bem melhor. Todavia, todos esses itens que foram citados a cima são geradores de emprego e renda. Há alguns itens que se encontram sem registros de datas. Peço desculpas por não citá-los. Porém, são fotos reais e existem mais ainda.

3.5 GESTORES E OS DESAFIOS DO PODER

Desde o início das primeiras disputas políticas, os principais dirigentes de nosso povo mostraram-se despreocupados em organizar de forma razoável a área urbana do município. Basta saber que até hoje esta área pertence a herdeiros de fazendeiros e, por causa disso, já surgiram várias contendas entre eles. Também, por causa disso, a cidade já perdeu muito, está perdendo e vai perder muito mais. Basta saber que aqui não se pode construir imóvel financiado pela Caixa Econômica Federal, fazer empréstimos para reforma de casas e nem sequer alugar uma casa para funcionar um órgão estadual ou federal.

Todavia, percebe-se que, por parte de quase todos os nossos gestores, não há nenhuma preocupação real com o desenvolvimento socioeconômica da região voltada para o futuro, já que ações de combate à fome, desemprego, esporte, cultura etc. não são desenvolvidas. parece que quase todos esses políticos (os prefeitos) estão mais ligados a seus próprios afazeres, status e negócios, do que patrocinar a política, que é um bem e a felicidade de todos, no presente e no futuro.