sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

COLONIZAÇÃO DAS TERRAS JAPIENSES

O processo de colonização ocorrido no Brasil, especificamente no interior nordestino, que se deu nos séculos XVII e XVIII teve suas consequências também idênticas na localidade de Japi: com a extinção da tribo Cariri no Boqueirão, fato esse, denominado de (Guerra dos Bárbaros); a chegada dos posseiros: “(O Cruz, Belo e Monte, que eram dois padres, Adelino, que construiu o cemitério, O Costa, primo de Pedro Tolentino da Costa, Miguel Lourenço da Costa, Pedro Tolentino da Costa, também primo de Miguel Lourenço da Costa)”; as primeiras fazendas; os matadores de onças; a criação de rebanhos e o desenvolvimento da produção algodoeira.
(SANTOS; 2018, Pp. 24-32).
O texto a seguir foi extraído do livro JAPI, TERRA QUERIDA em fatos e fotos, que agora está confirmado pela Edtora: CJA LTADA - ME. A data da publicação será: 13/01/2018, num sábado, a partir das 19:00h, no prédio da E.E.Cel. Manoel Medeiros II. 

Os descendentes indígenas foram escravizados ou refugiados no sertão, sendo também perseguidos e mortos pelas terríveis guerrilhas, organizadas pelos grandes proprietários de terra para expulsarem os índios do interior OS PRIMEIROS POVOS: OS ÍNDIOS CARIRIS E TAPUIOS

Sabe-se através de registros históricos que no interior do Rio Grande do Norte predominavam os Tapuias, também chamados de Cariris. Vale saber, também, que os Cariris eram as tribos indígenas que habitavam nas áreas interioranas do Estado até o final do século XVIII. Os estudos comprovam que eles eram divididos em tribos como: Panati, Caicó, Peba e Tarariú, que habitavam o Seridó e o Trairi.
Por causa dos vestígios que nós encontramos em todos os arredores do nosso município, fica evidenciada a existência de muitos índios aqui neste torrão há centenas e milhares de anos. A saber, nas localidades de Letreiro, Tubiba, Salgado, Casinha, Japi de Dentro e Boqueirão de Cima. Acredita-se, com base em várias evidências, que a tribo que aqui viveu foi a Cariri.

Os nomes[1] dos povos indígenas são escritos conforme a “convenção para grafia dos nomes tribais”, adotada em 1953. Assim, os nomes tribais, excetos os de origem portuguesa, não sofreram flexão de número (FELIPE; CARVALHO, 2002, p. 8).

Cariry – grupo étnico que outrora ocupou grande extensão do Brasil para o norte de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. Cariry é o mesmo que Kiriri, que significa: silencioso, calado (FELIPE; CARVALHO, 2002, p. 9).



Foto: Google

1.1.1 A guerra dos bárbaros

Para Silva (2003, p.11), Quando o interior potiguar foi ocupado pelos colonizadores, ocorreu a chamada Guerra dos Bárbaros. Nesse período, houve muito derramamento de sangue no Rio Grande do Norte (1687-1797). Tribos inteiras, do litoral ao interior do Estado, como Tapuia, Pega, Caboré e outras, foram levadas à completa extinção (SILVA, 2003).    

Com o processo de colonização, o surgimento de propriedades no interior do Nordeste e o avanço dos poceiros, muitos índios morreram em combate, pois ficavam em desvantagem com seus armamentos, em que o arco e o tacape nada podiam diante das armas de aço e de fogo (o mau espírito trovejante) e da astúcia dos capitães de campo. Alguns fugiram para outra localidade do interior do Estado, negando-se ao trabalho como escravo.

Em muitos combates, algumas tribos foram completamente extintas. Foi o que ocorreu, no século XVIII, com os Cariris que moravam no Boqueirão de Cima, próximo à Fazenda Japi de Dentro. Naquela época, o interior do Rio Grande do Norte e da Paraíba ainda vivia o processo de colonização. As províncias incentivavam a escravidão ou a matança dos índios, fato descrito pelos historiadores de Guerra dos Bárbaros.
Com efeito, ainda segundo Silva (2003, p. 12),

a Guerra dos Bárbaros (1687-1697) exterminou a maioria da nação indígena na capitania do Rio Grande do Norte.
do Estado, tomando assim posse da terra para pasto de gado dos fazendeiros colonizadores.
O tempo de duração desse conflito interessava diretamente aos invasores que, conscientes do seu poderio militar, nada faziam para pôr fim à guerra, pois quanto mais tempo ela permanecia, mais terras eram conquistadas.
No final da Guerra dos Bárbaros, a população indígena estava reduzidíssima. Os que sobreviveram entraram paulatinamente num processo de miscigenação e de aculturação com a população branca, de origem portuguesa, e com os negros de origem africana. Somente após o esmagamento dos índios no século XVII, pôde a colonização portuguesa consolidar-se no interior potiguar ao longo do século XVIII

       
1.2 A CONQUISTA DO SERTÃO

1.2.1 A chegada dos posseiros

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                                                                  Tropeiros      foto: portaldorancho

Assim surgiram as primeiras propriedades e os primeiros pequenos proprietários. De acordo com Silva (op. cit., p. 14), “o posseiro, egresso, muitas vezes, das bandeiras e entradas que se internavam nos sertões à procura de índios, agarrava-se à terra, dominando-a, conquistando-a para possuí-la de modo amoroso, mas egoístico”. E fazia mais: nas suas entradas pelo sertão, perseguindo a ferro e fogo o gentio bravo, batizava a terra, domava as feras, abria picadas, veredas e estradas, vadeava os rios, subia e descia as serras deixando por toda a parte o traço marcante da sua personalidade e do seu engenho. Rios, córregos e riachos, lagos e lagoas, poços e fontes, serras e serrotes, caminhos, veredas e estradas, cacimbas e vertentes, olhos d’águas, barreiros, árvores, astros e aves, vegetais e plantas, todos, à sua passagem, perdiam o estado de natureza selvática, adquirido de graça e tendo o seu destino ligado a nomes de gente, de santos, de acidentes geográficos, de peixes, de árvores, de aves domésticas.
Silva (2003, p. 14) também afirma:

Com as melhores terras ocupadas pelo gado e pelos canaviais dos grandes proprietários, restavam as terras mais secas para serem apossadas. Começou a odisseia dos posseiros, que vinham de regiões da Paraíba, homens brancos, pardos e mesmo negros fugidos das senzalas, seguindo o curso dos rios, que em época de seca se transformavam em estradas, embrenhando-se na caatinga, saco nas costas, armas de fogo no ombro, caçando índios, matando onças, animados em assentar os primeiros currais, tangendo um touro e três novilhas (essa era a base da pecuária familiar), fincando palhoça nas ribanceiras dos rios, como informa Câmara Cascudo (1968), “e lá ia plantar choça de palha, taipa de bofete, matando onça a terçado e paiacu a tiro de clavinote. Tangia um touro, duas vacas, casal de cabras... chegava e ia ficando colono de si mesmo, alimentado pela esperança de sobrevivência. Que quando a sorte batia, a fartura crescia, surgiam assim os grandes proprietários”.

Os primeiros posseiros que tentaram viver nesta localidade não conseguiram permanecer porque não tiveram condições de enfrentar as dificuldades e desafios que lhes puseram à prova. Sabe-se que viveram aqui no início do século XIX, por volta de 1805 a 1825. Isso se deu logo após a extinção da tribo Cariri que vivia no Boqueirão do Japi. Veja o nome deles: Zé de Góes, Adelino, o Cruz e Belo Monte. Mais tarde, ainda na primeira metade do século XIX, chegou aqui, o Costa[2].
Em 1850, chegou o grande desbravador Miguel Lourenço da Costa. Ele veio trazido pelo pai, para tentar a sorte aqui nas terras do Japi. Ele foi o posseiro que permaneceu até a morte nesta localidade. Foi ele e seus descendentes que deram início ao povoamento da cidade de Japi.
Mais tarde, no final do século XIX, Aninha Geraldo e Joaquim Geraldo, seu esposo, apossaram-se da terra que era do Costa. No início do século XX, esse casal foi expulso e fugiu para cima da Serra Grande, onde se apossou de quase toda a chã daquela Serra.
Segundo Leôncio Miguel, o Costa era parente de Miguel Lourenço. Talvez tenha sido por isso que Aninha Geraldo tenha ficado com suas terras.


1.2.2 Os proprietários das fazendas Japi de Dentro

No dia 16 de fevereiro de 2006, fui à localidade do Trairi, com o objetivo de encontrar um homem que nascera na Fazenda Japi de Dentro. Este senhor é parente do tenente que junto com outros homens comandaram, há dois séculos, a ação que exterminou a tribo indígena que habitava no Boqueirão de Cima, próximo à fazenda Japi de Dentro.
Por volta das 18 horas desse mesmo dia, encontrei realmente a pessoa que eu procurava: O ancião de 84 anos, que estava acompanhado por um dos filhos.  Os dois estavam trabalhando na beira do Açude do (...).
Depois de fazer perguntas a respeito de seus familiares, o ancião me respondeu: “Meus bisavôs possuíam a fazenda Japi de Dentro, situada nas chãs da Serra Grande e de Serrinha, ficando a maior parte no território paraibano, no meado do século XVIII”.
Continuei a conversa com o ancião e ele me disse que seus quatros avós faleceram entre a segunda metade do século XIX e a primeira metade do século XX. Conversávamos ainda, quando ele me disse que o avô materno era o fazendeiro que possuía mais bens naquela localidade e que, depois de sua morte, deixou uma grande fazenda com 50 cabeças de gado, quatro cavalos, um burro de sela, um chiqueiro cheio de ovelhas, outro cheio de bodes e duzentos alqueires[3] de farinha.
O ancião me disse ainda que, quando o seu avô materno faleceu, um dos filhos apropriou-se de quase tudo que ele possuía. Ele falou também que as terras que eram dos filhos de José Anselmo Pinheiro, antes pertenciam a um de seus tios.
Dizem que o homem que vendeu as terras a José Anselmo Pinheiro não mantinha boas relações com os proprietários vizinhos. Tanto que quando ele vendeu essa terra, as pessoas que moravam na vizinhança agradeceram a Deus, por saberem do ocorrido e até compraram um brinde para presentear o novo proprietário, José Anselmo Pinheiro.


1.2.3 O massacre do Boqueirão

Segundo o ancião informante, por volta de 1802, o seu bisavô juntamente com outros fazendeiros denunciaram os índios cariris. Esses fazendeiros estavam chateados com os insistentes ataques dos nativos aos seus rebanhos. Por isso, prestaram queixa ao governo da província da Paraíba, exigindo dele urgente providência, porque não estavam suportando mais a presença daqueles nativos em suas propriedades.
Na ocasião, os proprietários da fazenda Japi de Dentro alegaram às autoridades paraibanas que além dos índios estarem destruindo os rebanhos das fazendas, também representavam uma ameaça e medo aos fazendeiros e seus familiares. E, atendendo às solicitações dos proprietários, as autoridades da Paraíba, que também naquela época ainda conservavam vivo o espírito invasor e destruidor das guerrilhas dos bárbaros, agiram imediatamente enviando um batalhão de policiais, o qual veio bem armado e comandado por um tenente filho do fazendeiro (mencionado na seção conhecedor daquela região, porque ali ele fora criado.
Segundo o informante, a tropa enviada pela província era composta por aproximadamente 250 policiais, vindos todos da Paraíba. Além do tenente, contaram também com o auxílio de alguns proprietários de localidades próximas, de jagunços e de um índio[4] manso, que pertencera à mesma tribo.
Por causa da contribuição do “índio manso”, que foi guiando, ensinando, onde, quando e como deveriam fazer para pegarem todos os índios de surpresa, o ataque ocorreu subitamente sem chance para os nativos se defenderem e nem sequer fugir. Pode até ser que algum deles tenha escapado, porém não temos concretas informações disso.
A estratégia que os fazendeiros e as autoridades da Paraíba usaram para destruir os índios foi parecida com a maneira usada pelos colonizadores, fato esse já mencionado antes nesse capítulo, que ficou conhecido historicamente como “Guerra dos Bárbaros”: ação cruel, desumana e radical. Segundo o informante, esse massacre dizimou aproximadamente dois mil nativos da tribo cariri, que moravam no Boqueirão, às margens do rio Jacu.
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                                                         Foto:wikipedia

O informante detalhou que os cariris se encontravam dormindo, quando o tenente apontou uma arma em direção a uma rede que estava pendurada entre alguns “ganchos” de uma grande craibeira que se encontrava no meio do rio Jacu, na qual estava o cacique Xatau. Em poucos segundos: um tiro, dois tiros. O cacique caiu morto no tronco da craibeira. Esse índio, além de cacique, era um vigilante da tribo.
Enquanto os índios se levantavam tonteados e assustados, os soldados iam fazendo o cerco e deixando um amontoado de mortos. Assim, como tudo foi bem planejado, após matarem o cacique, mais de 50 soldados, bem armados com fuzis, garruchas e espadas, ficaram posicionados atrás das pedras próximas ao local onde se encontravam as armas dos índios, só esperando a chegada dos nativos, pois, com certeza viriam pegá-las. De fato, próximo a esse local foram mortas centenas de cariris. Soldados, em cima de árvores, atrás de pedras, de troncos de árvores e bem posicionados, fuzilavam e matavam os que tentavam escapar do cerco. Enquanto isso, o tenente dava ordem para outro grupo de militares atacar e avançar em direção aos índios.
O massacre do Boqueirão[5] começou ao “quebrar da barra” (ao amanhecer), logo depois que o índio manso roubou todas as armas da tribo, as quais ficavam guardadas numa loca de pedra durante a noite, e findou na parte da tarde, quando o sol já se encobria por trás do imenso paredão da serra, que se estende na direção do poente.
Os soldados já estavam se reunindo para ir embora quando de repente perceberam algo correndo entre as pedras: era uma pequena e, talvez, única sobrevivente índia que corria desesperada pulando as pedras do rio Jacu, perseguida pela guerrilha que acabara de exterminar seu povo; ela na sua desesperada corrida lembrava as águas do Jacu quando tudo era paz. Agora estava ali, sozinha, acossada. Sua família, o pajé, seus amigos, todos mortos. Seus passos diminuíram. Sentia-se cansada. Até que a tropa a encontrou caída numa loca de pedra. O tenente que era parente do fazendeiro e que comandou o massacre resolveu levá-la com vida. Quando ele aproximou a mão no ombro da jovem nativa, foi surpreendido com uma violenta mordida desferida pela índia. Essa mordida foi tão forte que o dedo polegar da mão esquerda do tenente foi decepado e caiu em seus pés. Nesse instante, o tenente trêmulo e transtornado de dor puxou a espada da bainha, e com ela feriu a jovem, matando-a a golpes, no meio do rio Jacu, aquela corajosa índia da tribo cariri que habitava no Boqueirão, situado entre as serras do Japi de Dentro.
Cariry – grupo étnico que outrora ocupou grande extensão do Brasil, da Bahia para o norte de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. Cariry é o mesmo que Kiriri, que significa: silencioso, calado (SOARES, 1930).