terça-feira, 26 de dezembro de 2017

A FAMÍLIA CONFESSOR EM JAPI

No dia 12 de Janeiro de 2018 acontecerá o maior evento cultural e histórico da cidade de Japi, cidade integrante da região do Trairi. Trata-se do lançamento do livro JAPI, TERRA QUERIDA em fatos e fotos. Será de fato o advento mais esperado do mês de janeiro, por todos aqueles que amam e admira a história de uma cultura, em especial o povo japiense, que irão conhecer a sua real e verdadeira história, desde o processo de colonização, quando aqui vivia a tribo Cariri, os pássaros Xexéu ou japim e o jacu. A miscigenação, a formação e o desenvolvimento socioeconômico, político, religioso e o quadro atual em todas as esferas da sociedade do município e os protagonistas da nossa história.
Essa será uma obra pioneira, que no dia 13 será apresentada no espaço do prédio da E.E.Cel. Manoel Medeiros II, com a participação de vários escritores e da associação dos poetas do Trairi, algumas autoridades estaduais e municipais e o trio Irapuã. Para dinamizar serão instalados dois telões: um irá apresentar fotos antigas do município e do Trairi. Outro irá apresentar gravações e vídeos que foram gravados pelo autor e outras mais.

A história a seguir foi transcrita do referido livro: (SANTOS, 2018, Pp. 81 - 94).
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                       
 1.11.10 A família Confessor


Todos os relatos seguintes são provenientes de informações que me foram repassadas pela poetisa Francisca Confessor, filha de João Confessor. Segundo ela, em 29 de janeiro de 1884, nasceu João Batista Confessor no Sítio Salgado, próximo à residência do senhor José Veloso, à margem esquerda do rio Jacu. Segundo o informante, nessa época, seu pai tinha aproximadamente 18 anos de idade, quando começou a trabalhar como tropeiro, tangendo jumentos, levando mercadorias do Brejo para o Sertão e trazendo do Sertão para o Brejo, passando sempre pelos caminhos de Japi.
Anos mais tarde, com o falecimento de seu pai e de sua mãe, João Batista ajudou a criar os seus irmãos.

João Batista chega ao povoado de Japi

Francisca Confessor disse ainda que em 1905. Logo após casar-se com Adelina Confessor, João Batista comprou uma “tira de terra” à direita do rio Jacu, próximo ao Monte do Cruzeiro. Nesta área, posteriormente veio morar e criar toda a sua família, dando início aos fundamentos da cidade de Japi.
Quando chegou aqui, ele foi logo morar numa casinha que ficava próxima à casa que pertence ao senhor Minel. Vale saber, que a casa ficava no pé do Monte do Cruzeiro.
 A casa do senhor Minel, naquela época, pertencia ao senhor Zuca Confessor, irmão de João Confessor. A distância que existia entre a casa que João Batista morou e a casa do seu irmão era de aproximadamente 250 metros, saindo da casa de Zuca Confessor e indo em direção ao nascente.
No ano que João Batista chegou a essa localidade comprou um pedaço de terra. Essa terra outrora pertencera ao posseiro Miguel Lourenço. Porém quando ele comprou ela pertencia ao senhor Valdivino Sampaio, que era casa do com a filha de Manoel Nicolau.
É relevante saber, que na tira de terra que João comprou, passado algum tempo, ele construiu uma casa a qual deu início à primeira rua da cidade de Japi (Rua Manoel Medeiros).                                          
O marco da tira de terra que pertencia a João Batista Confessor de Oliveira localizava-se onde hoje ficam os seguintes lugares: ao oeste, próximo à mercearia do senhor Mauro Nascimento, descendo em direção ao rio até próximo ao matadouro público; ao leste, próximo às Pedras da “cachoeira do rio de Jodoval”, e subia até a casa do senhor Nilton Medeiros.
Em 1915, Zuca Confessor morreu e consequentemente todos os seus filhos foram morar com José Confessor, que residia no Sítio Salgado, localidade que pertence ao município de Japi. Anos depois, José Confessor vendeu a tira de terra e a casa, que pertenciam aos filhos de Zuca Confessor, ao senhor Manoel Nicolau, avô de Aristides Nicolau.
Esses bens foram passando como herança de pai para filho: Manoel Nicolau passou para João Nicolau, João Nicolau para sua filha Francisca Nicolau (Chiquinha de Ivo), que junto com o esposo, Ivo Anselmo Pinheiro, trocou essa herança com o senhor Oliveira, pai de Minel, por uma casa que ele possuía na Rua Manoel Medeiros. Anos depois, após a morte de Francisca Nicolau e de seu esposo, Ivo Anselmo Pinheiro, suas filhas, Fátima e Cândida Nicolau venderam esse imóvel ao casal Humberto e Cláudia, que logo mandou demoli-lo e construir no lugar um grande prédio, no qual, em 2003, abriram uma loja de móveis. Anos depois, o casal fechou a loja e alugou o ponto à empresa Maré Mansa[1] (loja de móveis). Hoje quem comercializa nesse prédio é novamente o senhor Humberto e Cláudia.

A primeira bodega do povoado

Em oito de janeiro de 1918, João Batista Confessor se mudou para uma casa que ficava no outro lado do rio Jacu, onde morava José Paulino, próximo da ponte que liga o Alto São Sebastião à outra parte da cidade. Nessa casa ele pôs um comércio, que ficou sendo a primeira bodega[1] do povoado de Japi. Depois de passar dois anos morando e comercializando na referida casa, João se mudou para uma nova casa que ficava do outro lado da estrada, de frente para o norte, na qual, anos atrás, morou Antônio Certeza e, depois, Deinha Nicolau.

A primeira casa da Rua Manoel Medeiros

Por causa da oferta de emprego nos campos de algodão, do surgimento migratório expressivo e do fluxo de tropeiros no início do século XX, João Batista Confessor entendeu que, cedo ou mais tarde, a tendência do povoado era se tornar uma cidade porque vinha muitas famílias para o povoado para trabalhar nos campos agrícolas e, ficavam definitivamente morando aqui. Então, por causa disso e do seu projeto comercial, em 1922, ele construiu uma casa, que até hoje é conhecida pelo nome de “Chavião”. Essa casa foi a célula embrionária da primeira e principal rua de nossa cidade, cujo  nome é Rua Manoel Medeiros.
Vale saber, que essa casa recebeu o nome de “Chavião” devido a uma grande fechadura e a enorme chave que media mais de 15 centímetros de comprimento que existia nela. Segundo Nêno Medeiros, essa casa passou a se chamar Chavião depois que o então proprietário dela, Pedro Tolentino de Medeiros pôs essa grande fechadura nela. O informante disse que essa fechadura veio de uma casa velha que existia na propriedade que seu avô possuía na localidade do Sítio Novo.

Vale dizer também, que depois de 1924, a saber, em 1930, essa casa foi vendida para o coronel Manoel José de Medeiros, cujo mandou seu filho, Pedro Tolentino de Medeiros morar nela. Hoje, esse imóvel pertence aos herdeiros do saudoso Pedro Tolentino de Medeiros.  
Há quem diga que um dia João Confessor sonhou em ver Japi se tornar uma cidade. Se de fato isso aconteceu, esse projeto só se tornou evidente em 1959, quando a localidade de Japi passou a ser município. Vale salientar, que lamentavelmente, o nosso sonhador já havia falecido. Fato esse que ocorreu em 1957.

Para dar continuidade à formação de novas ruas, em 1960 o então prefeito Pedro Tolentino de Medeiros contratou um engenheiro e mandou mapear toda a área urbana, limpando com máquinas e fazendo desenhos das futuras ruas e depois, juntamente com os vereadores, pôs um nome na primeira rua da cidade de Japi: “Rua Manoel Medeiros”, homenageando seu pai, o coronel Manoel José de Medeiros, que falecera em 1959.
Em 25 de outubro de 1924, João Confessor construiu outra casa, vizinha ao “Chavião”, do lado do nascente, a qual pertence hoje aos herdeiros do já falecido Pedro Tolentino de Medeiros. No final de 1924, João Confessor saiu da casa em que morava, no outro lado do rio Jacu, e foi morar na última casa que construíra, ao lado do “Chavião”. Na ocasião, ele levou também para lá o seu comércio (bodega).

João Batista organiza a primeira feira campal

Segundo Francisca Confessor, em sete de fevereiro de 1926, João Batista Confessor de Oliveira fez uma latada, que ficava próxima à sua bodega. A latada foi feita de estacas e coberta com palha de oiticica. No mesmo ano, começou ali uma feira campal que ele organizou junto com as pessoas do povoado. A feira era realizada nas sextas-feiras, pois naquela época havia uma grande movimentação de tropeiros que vinham da Paraíba e passavam por esta região, indo em direção ao Sertão, levando e trazendo mercadorias. Alguns chegavam ao povoado na sexta-feira pela manhã e ficavam várias horas na feira e, na parte da tarde, iam para Santa Cruz, pois no sábado era, como até hoje, dia de feira lá. Outros vinham da Paraíba somente para a feira de Japi, vendiam suas mercadorias e voltavam. Quando sobravam muitas mercadorias dos feirantes, João Batista Confessor as comprava e as vendia, durante a semana, às pessoas do povoado.
Aos poucos a rua ia crescendo. Em 1930 já existiam oito casas na rua que atualmente é conhecida pelo nome de “Manoel Medeiros”, e todas construídas por João Batista. Naquela época, o início da rua começava na casa que hoje é dos herdeiros de Pedro Tolentino de Medeiros, vizinha à casa de Xavier Medeiros e se prolongava até onde atualmente existe um bar que pertence ao senhor Tino, cujo prédio foi construído também por João Batista Confessor, no limite de sua terra.
A feira campal foi construída na frente dessa embrionária rua, debaixo da latada, mas era bem organizada. Naquele tempo, no dia da feira, eram abatidos os seguintes animais: um ou dois bois, dois bodes e dois porcos. E se sobrasse alguma parte da carne, os marchantes a negociavam com João Batista, para ele revender durante a semana no seu comércio. Havia também na feira uma diversidade de mercadorias: legumes, cereais, frutas, peixes, roupas, objetos de trabalho, chapéus, panelas, jarros, pratos de barros e outros.

Uma noite de vendaval

            Segundo a senhora Rita de Nuca, o comércio livre sob a latada durou 27 anos. Iniciou em 1926 e findou em 1953. Foram 27 anos de experiências no setor comercial, que o povo que detinha o poder em suas mãos, naquela época, não poderia de forma alguma ter deixado cair definitivamente por terra. Talvez fosse por esse caminho que Japi teria que seguir para encontrar o rumo certo para obter um desenvolvimento estruturado por via do comércio. Mas, por falta de diligência e visão esse sonho foi embora com a tempestade, em 22 de maio de 1953, às duas horas da manhã, quando uma chuva acompanhada de ventos fortes derrubou a latada.
            A informante relata que na noite de 22 de maio daquele ano, o povo que dormia próximo à feira campal acordou com um grande barulho. Embora fosse grande a escuridão, quando ocorria um relâmpago clareando tudo ali por perto, alguns curiosos se arriscavam e abriam um pouco as janelas. Pelas brechas viam a latada derrubada. 
              Embora fosse tamanha a tristeza das pessoas que participavam direta e indiretamente daquela feira, foi maior a surpresa diante da chuva e o susto que tiveram pela violenta ventania e queda da latada. Vale ressaltar, que embora tenha causado dano à latada, aquele temporal juntamente com a chuva trouxe um alívio e um pouco de alegria, principalmente para os agricultores. Pois, mesmo sendo muito tarde para plantarem grãos de feijão, milho e fava, com a terra molhada renascia neles uma nova esperança de ainda colherem alguns “capuchos” de algodão e de verem nascer algum pasto nos campos, para alimentar os animais que já estavam passando muita fome.
  Vale salientar, que em 1937, existiam no povoado de Japi 32 casas e uma população estimada em 250 pessoas.

Advento das festividades religiosas

Noutro dia estive na casa da poetisa Francisca Confessor, quando ela me disse que foram João Batista Confessor e Antônio Confessor os organizadores das primeiras festividades religiosas, as quais são comemoradas até hoje na cidade de Japi: em 1925, João Batista Confessor deu início a alguns eventos e festividades religiosas ligadas à Igreja Católica e Antônio Confessor, em 1942, deu início aos eventos religiosos ligados aos evangélicos (crentes).
É relevante dizer, que durante cada ano, João Batista Confessor fazia três novenas ou novenários, cada uma delas dedicada a um santo. Para tanto, Para animar as festividades, ele convidava alguns artistas da época. Entre eles: violeiros repentistas, trovadores, cantadores de coco, João Redondo, sanfoneiros e um boi de reis.
João Batista Confessor de Oliveira contribuiu bastante para desenvolver o povoado de Japi, nas décadas de 1910 a 1930. Por isso, ele é considerado por muitas pessoas de Japi como fundador da cidade, porque ele fez as primeiras casas da primeira rua da cidade.
A formação e organização do povoado, distrito e posteriormente cidade de Japi, deve-se  a princípio, a três pessoas: Miguel Lourenço, Manoel José de Medeiros e João Batista Confessor de Oliveira.
O maior folclorista e historiador potiguar, Luiz da Câmara Cascudo, descreve em seu livro “Terras Potiguares” que João Batista Confessor de Oliveira é o fundador do núcleo de moradores de Japi.
Além de João Confessor ser o fundador da feira campal e livre da cidade de Japi, é também o fundador da primeira rua e da primeira novena de São Sebastião. Ele foi o primeiro japiense a receber um título de autoridade nesta localidade. O primeiro cargo que ele recebeu foi de inspetor de quarteirão. Como Japi naquela época ainda era apenas um povoado, ele agia como se fosse um delegado. Esse cargo, ele assumiu em 28 de dezembro de 1924, e depois de alguns anos ele foi promovido a subdelegado do povoado. Quem o promoveu foi Nestor Marinho, autoridade relevante do município de Nova Cruz, a quem o povoado pertencia naquela época.
Além de construir a primeira rua, João Batista Confessor tinha outros planos que pretendia executá-los. Entre eles, dois eram prioridades: construção de uma capela, pois ele era muito religioso (católico praticante) e um grupo escolar. Segundo sua filha, a poetisa Francisca Confessor, ele sempre dizia quando estava sentado na varanda de sua casa: “Ainda vou construir uma capela ali” – mostrando com o dedo o lugar bem na frente de sua casa – “e um grupo escolar nesse povoado”. Esses planos não foram realizados por ele porque o sonhador não teve condições econômicas e nem políticas para construí-los.
A chegada do primeiro posto fiscal
                                          
Em 20 de julho de 1932, começou a funcionar um posto fiscal no povoado de Japi. Por isso vinham soldados da cidade de Macaíba para guarnecer esse posto, porque passavam por aqui muitos mercadores com produtos, ocorrendo, portanto, um fluxo de tropeiros comerciantes. Esse fluxo de mercadorias era realizado pelos tropeiros que saíam do Brejo Paraibano com destino ao Sertão, e vinham do Sertão para a Paraíba, passando sempre por Japi, tendo em vista que por aqui o caminho se tornava mais curto.
No ano que começou funcionar esse posto fiscal, veio residir nesta localidade o Sr. Eustáquio. Ele foi o primeiro guarda fiscal a vir trabalhar no povoado. Ele era evangélico e muito sábio e muito conhecedor da Bíblia Sagrada. Ele foi o primeiro crente que veio a Japi e falou de outra doutrina religiosa. Por causa da religião e de sua crença, ele era muito criticado por algumas pessoas da localidade.
De fato, naquela época, a sociedade brasileira era muito tradicionalista, ignorante e preconceituosa para com várias tendências e inovações que emergiam da sociedade que se modernizava. Era muito diferente dos dias atuais, especificamente no campo da religiosidade.


Os Confessores deixam Japi

Francisca Confessor disse que em 13 de agosto de 1932, infelizmente, o grande sonhador João Batista Confessor resolveu ir embora para a Paraíba. Vendeu a “tira de terra” e algumas casas a Manoel Medeiros e foi para a cidade de Cacimba de Dentro/PB. Com isso, Japi parou de sonhar, João parou de sonhar e até hoje Japi continua dormindo sem sonhar.                                                                    
Quando João foi embora, deixou o comércio do Chavião com o seu filho Antônio Confessor. E, meses depois, Antônio Confessor assumiu o cargo de subdelegado do povoado.
 Depois que João Batista Confessor foi embora, Manoel Medeiros direcionou suas ideias e seus planos para a rua que João tinha iniciado. Haja vista, que o seu sonho de iniciar a cidade no Alto São Sebastião não tinha ganhado a simpatia dos moradores do povoado. Todos só queriam construir suas casas perto da área onde João tinha feito à pequena rua e a feira campal.
 Logo após a saída de João Confessor para a Paraíba, Manoel Medeiros mandou seu filho Pedro Tolentino de Medeiros morar na casa que ficava no centro da pequena rua, na qual João Batista Confessor morou. Depois, mandou construir uma casa, na qual ele botou um comércio e entregou a seu filho Pedro Tolentino. Nessa casa, quando não existia mais o comércio, morou Josefa de Araújo Lima (dona Vesinha), que era casada com Francisco Assis de Medeiros, irmão de Pedro Tolentino. Esse imóvel existiu até 2009. Ele foi demolido e no lugar dele fizeram outro prédio que pertence à neta de Josefa de Araújo, Niedja de Medeiros, irmã do então prefeito de Japi Robson Wanderley de Medeiros, onde funciona um supermercado (Mercadinho Medeiros).
A informante falou ainda, que em 05 de janeiro de 1935, Antônio Confessor foi embora para Cacimba de Dentro. Lá, ele conheceu uma jovem, evangélica, e logo começou um namoro com ela. Anos mais tarde, ele aceitou o evangelho e se casou com a jovem. O nome dela era Georgina Feitosa.

1.11.11 A construção da capela do Alto São Sebastião



Em 1936, Manoel Medeiros concluiu a construção da capela[1] de São Sebastião à esquerda do rio Jacu, na área que hoje é conhecida pelo nome de Alto São Sebastião.
Segundo algumas pessoas, Manoel Medeiros tinha duas finalidades: primeiro, que sua família fosse sepultada nessa capela, seguindo assim, a tradição portuguesa e dos antigos donos de fazenda. Segundo, que a cidade fosse desenvolvida próxima a ela. Dessa forma, nos períodos das grandes enchentes o acesso ao núcleo de moradores de Japi não seria interrompido pelas águas do rio Jacu e também facilitava o acesso à Santa Cruz.
Porém, João Confessor pretendia que a cidade se desenvolvesse do lado de cá. Com isso, percebe-se evidentemente que havia uma disputa ideológica entre os dois líderes do então, no que diz respeito à construção da cidade.
 Os dois eram pessoas inteligentes e tinham características em comum: a busca incansável pela prosperidade econômica. Manoel Medeiros focalizava mais a cultura tradicional dos grandes latifundiários, fundamentada na produção de algodão e na criação de rebanho bovino. João Confessor visava aspectos mais modernos e voltava-se mais para o comércio de produtos alimentícios, produtos de uso caseiros e de trabalho no campo. Todavia foi o que mais aprendeu na escola dos tropeiros.
Acredito que um dos fatores que contribuiu para que João Confessor abandonasse essa localidade foi o fim da passagem dos tropeiros por aqui. Eles contribuíam muito para o comércio de João. Aliás, como já foi citado antes, João Confessor outrora havia sido tropeiro. E, por isso havia certo elo entre ele e os tropeiros. Talvez tenha sido por isso, que no início ele preferiu vir para o pé do monte. Pois, ficava perto da via que trafegavam os tropeiros.
Quando João Confessor chegou ao povoado, por volta de 1905, foi residir próximo ao lugar onde hoje está a capela de São Sebastião. Mas, logo percebeu que a área ideal para desenvolver seu comércio e a cidade era do outro lado do rio. Pois, era lá que passavam todos os dias, tropas de matutos com muitas mercadorias e, nessa área já existia um bom número de casas de taipa de pessoas do povoado e tendia a crescer mais.

1.11.12 A volta de Antônio Confessor para Japi

De acordo com Antônio Branco e Francisca Confessor, em 20 de janeiro de 1937, Antônio Confessor deixou a cidade de Cacimba de Dentro/PB e voltou para Japi, trazendo consigo a família. Ele era um crente muito fervoroso. Pregava o evangelho para todas as pessoas da localidade e a quem se aproximava dele. O saudoso Antônio Branco um dia me disse que certa vez, quando o missionário Frei Damião estava de passagem por Japi, e encontrava-se na residência do “major” Pedro Tolentino de Medeiros, Pedro, aproveitando o momento, organizou um debate entre Antônio Confessor e Frei Damião. Terminado o debate, o frei não conseguiu convencer Antônio Confessor. Foi por isso que Pedro Tolentino de Medeiros disse: “Até hoje, não vi homem na terra mais sábio do que Antônio Confessor”.

Antônio Confessor e a construção do templo evangélico
                                               
Em 25 de setembro de 1940, Antônio Confessor assumiu o cargo de guarda fiscal de Japi e, em 1942, ele construiu a primeira igreja evangélica nesta localidade. O prédio localizava-se na Rua Manoel Medeiros, próxima à casa de “Zé Varelo” ou “Zé de Nô Birico”. Essa casa foi reformada e deu lugar a um prédio de primeiro andar que pertence ao senhor Edmilson Souza do Nascimento (Mima de Antônio Branco), onde ele e sua família residem na parte superior desse imóvel. Na parte de baixo, há dois compartimentos. Num deles, até junho de 2017 funcionava uma casa lotérica, que pertenciaa José Antomar Pinheiro de Medeiros; no outro lado, até essa mesma data havia um comércio que pertencia ao dono do prédio, Edmilson do Nascimento (Mima).                       

 1.11.13 João Batista volta para Japi

Em 17 de fevereiro de 1942, João Batista Confessor deixou a Paraíba e voltou ao povoado de Japi. Quando ainda residia na cidade de Cacimba de Dentro, converteu-se ao evangelho da Igreja Batista Fundamentalista. Todavia, talvez por motivos desconhecidos e também devido à questão religiosa, tendo em vista que após a sua volta a Japi ensinava fervorosamente para as pessoas do povoado uma nova tendência religiosa, provavelmente tenha sido esse um dos fatos que dificultou a sua permanência na localidade de Japi. Antes, no início do século XX, João Confessor organizava celebrações religiosas do catolicismo. Essa sua nova ideologia religiosa causou de certa forma uma indiferença em parte da população de Japi, e deve-se levar também em consideração que ele já era um homem um pouco idoso. Há quem diga que havia uma espécie de ciumeira por parte de algumas pessoas daquela época para com ele. Talvez essas pessoas tenham demonstrado também algum tipo de rejeição por ele tentar incentivar e colaborar a formação da cidade naquele local, todavia, é do nosso conhecimento, que ele organizou a primeira rua e a feira campal junto ao seu comércio e a sua residência, contrariando assim os planos do coronel.

João Batista e seu retorno definitivo para a Paraíba.

Por esse ou por outro motivo que só ele sabia, em 04 de março de 1947, João Batista Confessor de Oliveira deixou novamente Japi e foi para Campina Grande/PB, onde em 27 de agosto de 1952 faleceu e lá mesmo foi sepultado.
1.11.14 Antônio Confessor é transferido para São José do Campestre

Em 20 de janeiro de 1946, o filho de João Confessor, Antônio Confessor, foi transferido para a cidade de São José do Campestre/RN, e, depois que sua primeira esposa faleceu, ele se casou novamente aonde permaneceu morando até o início de 2005, quando faleceu.
Segundo Mauro Pinheiro, Antônio Confessor só foi embora de Japi porque pessoas que naquela época tinham grande poder e influência política o transferiu para trabalhar na referida cidade. E, segundo o informante, no seu lugar puseram Manoel Medeiros Filho.  
Em São José do Campestre, Antônio Confessor começou a praticar de novo as atividades comerciais que exercera na cidade de Japi. Lá, ele botou uma panificadora e vendia pão para muitas pessoas daquela cidade.
Mesmo com a idade um pouco avançada, Antônio não parava de sonhar. Dedicou-se aos estudos e ainda conseguiu se formar em Direito e assumiu a função de advogado por vários anos. Ele também deu bons estudos aos seus filhos. Tanto que suas duas filhas, uma é advogada e outra é promotora. Elas são filhas[1] da primeira família dele.


1.11.15 Francisca Confessor, uma herança cultural


Francisca Confessor, nascida em 12 de setembro de 1913, é filha de João Batista Confessor de Oliveira, um dos principais fundadores da cidade de Japi.
“Dona Francisquinha Confessor”, como é conhecida, foi por muito tempo a maior e mais famosa costureira da localidade de Japi.

Segundo João Pedra, muitas pessoas que vivenciaram e conheceram realmente de perto o trabalho dessa senhora, afirmam que naquela época ela era uma excelente profissional na arte de costurar e que a sua casa era enfeitada por uma diversidade de roupas: de crianças, jovens e adultos. Tanto ela fazia roupas por encomendas como também fazia roupas para vender a compradores eventuais.                                                                   
Na época em que Francisca Confessor costurava muito, a jovem de 15 anos, Maria Cassiano da Paz (Maria de Salvina), minha mãe, ajudava a senhora Francisca Confessor a fazer alguns trabalhos. Tanto na limpeza da casa como nos acabamentos das costuras.      

O informante disse também, que quando uma pessoa encomendava uma roupa, a costureira Francisca Confessor perguntava logo: “É para trabalhar ou para passear?”. Se fosse para trabalhar, ela ia à loja de Antônio Branco (loja de tecidos que existia na época em Japi), e comprava alguns metros de mescla azul ou marrom. Mas se fosse para passear, ela comprava alguns metros de linho branco ou outro tecido parecido e fazia a mais bela roupa do momento. 

A grande poetisa do Trairi

Dona Francisca Confessor, além de ser uma das melhores costureiras locais, ela também deu uma grande contribuição na parte literária. Participou da Literatura Potiguar, quando escreveu o poema EU SOU, o qual foi premiado por uma comissão do Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização). Vale salientar, que nessa época, isto é, em 1971, dona Francisca era aluna dessa modalidade de ensino supletivo.
Francisca Confessor me disse no dia em que a visitei, que ela era amiga do maior folclorista e historiador potiguar, Luís da Câmara Cascudo. Disse-me ainda, que se encontrou algumas vezes com ele e, num desses encontros, ela chegou a fazer uns versos de improviso diante de Cascudo, com o tema “O Cascudo”. Veja as palavras do nosso grande historiador potiguar, quando ele se referiu a João Confessor, o pai da poetisa. Câmara Cascudo o descreveu assim: “A história de Japi é João Confessor”. Essa frase causou polêmica em Japi, assim falou a poetisa.
Francisca Confessor escreveu lindos poemas, e escreveu também muitas poesias de cordel, sendo considerada, portanto, uma grande poetisa do Trairi.
Quando fiz esta entrevista com dona Francisca Confessor, ela tinha 93 anos de idade. Dias depois de falar com ela, eu soube que ela sofrera um acidente e, por causa disso, não pôde mais andar, e consequentemente ela foi morar na casa de seu sobrinho Antônio Martins do Nascimento (Antônio Branco), onde faleceu em 28/10/2014. Ela foi um exemplo de vida e de cultura para todos os filhos desta cidade. Ela era uma pessoa íntegra, religiosa, conselheira, admiradora da poesia e da cultura popular. Ela era uma fonte viva de conhecimento.                                                               

1.11.16 Nomes de destaque da família Confessor

– Da ilustre família Confessor surgiram várias personalidades que se destacaram na história da formação do povo japiense e deram suas contribuições para o progresso e desenvolvimento deste município, como já foram citadas antes:
– João Batista Confessor de Oliveira fundador da primeira Rua de Japi (1924) e um dos principais fundadores da cidade. Organizou a primeira bodega (1918), que foi o primeiro comércio desse tipo em Japi. Foi o primeiro sargento de Polícia Militar da cidade (1924), organizou a primeira feira campal (1926), organizou a primeira novena de São Sebastião (1930) e foi o primeiro eleitor mais alfabetizado desta cidade (nas décadas de 1930 e 1940).
– Antônio Confessor foi delegado (na década de 1930), fiscal (1940), construtor de várias casas, inclusive do primeiro templo evangélico da cidade de Japi (em 1942); comerciante (na década de 1930) foi também um dos pioneiros na divulgação da doutrina evangélica (1940) e teve duas filhas: uma é advogada e outra é promotora.
 – Francisca Confessor costureira (1958), poetisa e historiadora (década de 1970).
 – Jorge Confessor (ex-vereador).
 –Antônio Martins do Nascimento – Antônio Branco (comerciante, vereador, vice-prefeito e amante da poesia).
 – Zé Confessor (grande proprietário da localidade do Salgado no início do século XX).
 – Francisco Maciel Souza do Nascimento, um professor exemplar, formado em Letras pela UFRN, especializado em uma disciplina da linguagem e, atualmente encontra-se na direção da Escola Severina Pontes de Medeiros.
  – Antoniel Nascimento de Medeiros, filho de Maciel é advogado.
  – Francisco Edimilson do Nascimento (Mima) é tesoureira de muita competência da Câmara de vereador há anos.
  – Elildes Nascimento é funcionário de muita competência dos correios há anos.