terça-feira, 26 de janeiro de 2016

País não foi vacinado contra ministro da Saúde

Por Josias de Souza

A banalização do fisiologismo parecia funcionar como uma vacina. Cada dose de toma-lá-dá-cá tonificava os anticorpos que protegiam a sanidade nacional. A reiteração das nomeações exdrúxulas insensibilizava o brasileiro, levando a indignação a um ponto de equilíbrio. Impossível sobreviver no país da desfaçatez política sem essa imunização presumida capaz de conferir certa normalidade à anormalidade.

Mas nem as vacinas metafóricas previnem contra o vírus novo, oportunista. O descaramento estampado nas manchetes desafia todas as defesas. A terceirização de pedaços da Esplanada ao PMDB de Leonardo Picciani e a nomeação do deputado Marcelo Castro para o Ministério da Saúde submeteu o país aos horrores do imponderável.

Dias atrás, ao falar sobre os esforços para desenvolver uma vacina contra o vírus zika, o ministro mencionou, entre risos, sua torcida para que as mulheres sejam infectadas pelo zika antes de engravidar. “Não vamos dar vacina para 200 milhões de brasileiros. Nós vamos dar para as pessoas em período fértil. E vamos torcer para que as pessoas antes de entrar no período fértil peguem a zika, para elas ficarem imunizadas pelo próprio mosquito. Aí não precisa da vacina.”


Nesta segunda-feira, o ministro reiterou outra declaração esquisita que fizera na última sexta-feira. Nas suas palavras, o Brasil “perde feio a batalha” contra o mosquito aedes aegypti, que espalha dengue, zika e chikungunya. “Nós estamos há três décadas com o mosquito aqui no Brasil e estamos perdendo feio a batalha para o mosquito.” Ministro da Saúde torcendo em público pela doença da clientela é coisa inédita. Gestor público que joga a toalha e não pede demissão é absurdo. Presidente da República que mantém o absurdo no cargo é o absurdo levado às suas últimas consequências. Após espargir medo na atmosfera, o ministro participou de reunião com Dilma. Depois, convocou novamente os microfones, dessa vez para listar providências que Brasília supostamente adota para guerrear contra o mosquito. Na longa história da inconsequência brasileira, nada vacinou o Brasil contra esse tipo de coreografia.